Era uma vez um Moitará modernista...
No Moitará, algumas das tarefas da Biblioteca são pesquisar, estimular a pesquisa, pesquisar, disponibilizar material e informações, pesquisar, socializar nossas descobertas, pesquisar... A pesquisa é um processo que nunca se repete e nunca se esgota. Envolve e exige dedicação, mas, em troca, dá muito prazer!
Em nossa viagem pelo Modernismo, percorremos a estrada principal, ou seja, vimos os fatos que antecederam esse movimento, o que foi a Semana de Arte Moderna (SAM), seus principais representantes e a influência modernista na arte e cultura nacional. Por outro lado, também redescobrimos algumas trilhas, espaços pouco explorados e ainda instigantes, oitenta anos depois da SAM. Foi um processo muito rico e prazeroso de aprendizado.
Fruto dessa pesquisa, é o texto apresentado a seguir, lido em nosso Moitará por Barbara Carreira Cavalcanti e Tagore Penna Mendes de Almeida, da Turma Nambikwára - 7ª série - e por Selma Monteiro - dinamizadora da biblioteca Conde Quincas. Tinha por objetivo apresentar a história do dia-a-dia da SAM, apenas como um grande "mural audiovisual". Mas as três leitoras contribuíram para a animação dessa leitura introduzindo figurino, a movimentação em cena, os recursos de uma linha do tempo e de mímica, enriquecendo a proposta inicial. Então, para quem não assistiu à leitura, eis o texto na íntegra:
Era uma vez há oitenta anos... (por Selma Monteiro)
Olga está sentada lendo um jornal. Entra Marthe.
Marthe - Olga, escuta isso!
"15 de abril de 1922
Marthe, minha amiga, não sei se você se lembra das palavras cruéis que eu disse sobre a arte brasileira, ainda no ano passado, e sobre nossos artistas.
Hoje sou obrigado a me desmentir, a abandoná-las.
Há apenas um ano, em São Paulo, alguns artistas trabalhavam na calma dos ateliês e dos quartos isolados, conscientes de seu valor mas certos de serem esmagados pelo número de seus adversários no dia em que ousassem aparecer. E eis que, de repente, esses artistas fazem um apelo aos outros desconhecidos do Brasil e conseguem esta coisa surpreendente: dar a São Paulo, a cidade do café, noitadas de arte moderna." (*)
Narrador - Assim escrevia, em 1922, o poeta Sérgio Milliet a uma amiga imaginária chamada Marthe. Milliet foi testemunha da Semana de Arte Moderna.
Vamos transformar Marthe em uma personagem que mora no Rio de Janeiro. Levada pela curiosidade, ela busca saber mais sobre o que aconteceu naquela semana. Aqui tem início nossa história.
Marthe - Essa Semana deve ter sido fantástica! Anda, Olga, arrume suas malas. Vamos a São Paulo saber de tudo em detalhes! Rumo à paulicéia desvairada!
(Marthe senta junto a Olga e ambas congelam)
Narrador - Para entendermos as descobertas que Marthe fará, vamos dar uma olhada no que ocorria no mundo àquela época. Imaginem que estamos no início da década de 1920, depois da 1a. Guerra Mundial. A Europa vive um período de crise e destruição.
Antes se acreditava que o mundo viveria em progresso contínuo, graças à Revolução Industrial, mas a guerra acabou com essa idéia de felicidade. Os artistas europeus são influenciados pelo clima de pessimismo e suas obras mostram uma visão de mundo sombria e triste. (Colocando a tela 1 na linha do tempo). Mas em São Paulo...
(Marthe e Olga conversam, como se estivessem sentadas em um automóvel, olhando pela janela e apontando, às vezes).
Marthe - Olga, olha só essas alamedas dos Campos Elíseos...
Olga - Mas que bairro chique!
Marthe - E você sabia que a moda agora é dançar o maxixe nas festas? Quem diria, heim? Há pouco tempo essa dança não entrava em um ambiente familiar, só nos cafés-concerto...
Olga - Já estamos no Jardim da Luz.
Marthe - É, São Paulo está crescendo...
Olga - Tem teatros, livrarias, editoras, cinemas...
Marthe - Claro, além de mansões e palácios construídos pelos barões do café. E também imigrantes, bondes elétricos da Light, máquinas e novas construções da indústria.
Olga - Parece que a cidade está acelerando seu ritmo! Também, desde que a Ford se instalou na cidade, muitos Ford Bigode estão ocupando as ruas.... Ei, veja lá, na altura do Viaduto do Chá! Prédios de lojas e apartamentos de até três andares, recortando o céu. Por sinal, como está nublado...
Marthe - Se conseguirmos descansar e não chover, quem sabe podemos pegar um cineminha? A sessão começa às 19h30 e tem três filmes por programa. O que você acha?
Olga - Seria ótimo. É caro?
Marthe - Não, nem tanto. Uma cadeira custa 2.000 réis. (Congelam)
Narrador - Nos anos 20, existem cerca de 138 mil operários em São Paulo, recebendo salários muito baixos e com jornadas de até 14 horas de trabalho. Enquanto isso, as mansões da burguesia se multiplicam, com a riqueza gerada pelas fábricas. O proletariado se organiza e, em 1922, é fundado o Partido Comunista do Brasil, em Niterói (RJ). (Colocando as telas 2 e 3 na linha do tempo)
Os artistas e intelectuais paulistas buscam na Europa as novas técnicas para suas obras, mas os sentimentos sombrios que as obras dos artistas europeus provocam foram substituídos por uma visão de mundo alegre e otimista. "A alegria é a prova dos nove", diria Oswald de Andrade. (Colocando tela 4 na linha do tempo)
Os artistas brasileiros acreditam em uma "nova civilização" que irá surgir das ruínas de um Brasil atrasado. Vive-se a euforia do dinheiro que vem da plantação e comércio do café e da riqueza industrial.
(Olga e Marthe, já no quarto de hotel, tomam um chá e conversam)
Marthe - Estive conversando com o Oswald,,,
Olga - Quem?
Marthe - Oswald de Andrade, aquele jovem repórter que escreve no Jornal do Commercio. Ele foi um dos que organizaram a Semana, e fiquei sabendo de tudo, tudinho!
Olga - Ah, então conta, vai! A carta do Sérgio me deixou curiosa.
Marthe - Ele fala um bocado e começou a história em 1917, quando conheceu um jovem professor chamado Mário de Andrade. Oswald ouviu um discurso de Mario sentado numa das primeiras filas. Ficou muito impressionado e daí tornaram-se amigos.
Como Oswald viajou pela Europa e voltou com novas idéias, reunia-se com Mário e outros jovens para discutir sobre a arte nova e a aparição de dois artistas na cidade: a pintora Anita Malfatti e o escultor Victor Brecheret.
Olga - Pera, aí. Quem são esses dois?
Marthe - Calma, eu chego lá. Num sábado, Mário visitou com um amigo a exposição de Anita Malfatti. Diante de telas como "O homem amarelo" e "Mulher de cabelos verdes", deu gargalhadas. Anita não gostou da reação e, dias depois, para desculpar-se, Mário lhe ofereceu um soneto em homenagem ao "Homem amarelo" (colocando tela 5 na linha do tempo).
Narrador - Mário diria, em 1942, que "parece absurdo, mas aqueles quadros foram a revelação." Mas, voltemos à nossa história.
Marthe - Dias após essa exposição, Monteiro Lobato - esse você conhece, é claro! - escreveu um artigo atacando a arte moderna, e então Oswald e Mário e outros artistas saíram em defesa de Anita Malfatti.
O grupo foi crescendo, e há dois anos Oswald descobriu para os amigos o escultor Victor Brecheret. Excitados por Oswald, todos começaram a defender pelos jornais a arte de Brecheret (colocando tela 6 na linha do tempo). E assim, inspirados pelas artes plásticas, passaram a escrever de uma forma nova. Oswald diz que buscam a língua brasileira e combatem as formas literárias tradicionais, o parnasianismo e o simbolismo.
Olga - Posso imaginar como reagiram aqueles que foram criticados...
Marthe - É, verdade. Mas pela primeira vez na cidade as conversas deixaram de girar em torno de fofocas ou assuntos políticos para se concentrarem no debate sobre arte.
Olga - Mas como conseguiram o Teatro Municipal? Lá só costumam se apresentar óperas italianas e companhias teatrais européias...
Marthe - Foi o que perguntei ao Oswald. Ele me pediu calma e contou que a preparação dos festejos do centenário da Independência, no ano passado, acelerou o tumulto. Aos poucos, a turma futurista foi conquistando espaço nos jornais. Ele apresentou Mário de Andrade ao público, num artigo chamado "O meu poeta futurista". Ao contar isso, Oswald riu um bocado. Lembrou-se que Mário ganhou fama instantânea. Passou a ser vaiado nas ruas e perdeu todas as suas alunas de piano.
Narrador - "Nunca me diverti tanto", recordaria Mário depois, mas insistiu para que o termo "futurismo" fosse trocado por "modernismo", e todos aceitaram. Assim os integrantes desse grupo passaram a ser conhecidos como modernistas.
Marthe - Oswald pensa que a idéia da Semana surgiu ano passado, em uma reunião que aconteceu em sua casa.
Olga - Mas já ouvi falar que foi em um dos saraus na mansão de Paulo Prado, aquela lá da avenida Higienópolis. Afinal, Paulo é um intelectual, além de aristocrata, e sempre apoiou as críticas à burguesia.
Marthe - Quem sabe? Em outubro, um grupo foi para o Rio e conseguiu mais adesões, inclusive nosso conhecido maestro Villa-Lobos. Ah, mudando de assunto, você sabe quanto custaram os ingressos para as três noites?
Olga - Nem imagino.
Marthe - De 20 mil (balcões) a 186 mil réis (frisas e camarotes).
Olga - Mas esse preço é um absurdo! Para assistir ao filme A canalha de Pariz, lá no cine Pathé Palácio, a gente paga 2.000 réis...
Marthe - Apesar disso, o Municipal estava apinhado de gente, Olga. Todos os espaços do Teatro foram utilizados, até as escadarias, para que o público fosse envolvido por todos os lados, pela sensação da nova arte e pela pregação dos artistas! Oswald disse ainda que a idéia era criticar, por todos os meios, as formas convencionais de expressões artísticas.
E como houve choque! Algumas pessoas ficaram apavoradas, ironizavam as obras.
Graça Aranha, como você sabe, que é respeitado e conhecido como intelectual, fez a conferência de inauguração e criticou a Academia Brasileira de Letras. Você pode imaginar?
Olga - Houve protestos?
Marthe - Parece que um cavalheiro da platéia tentou levantar-se. Estava colérico. O companheiro, porém, puxou seu casaco, pedindo para que se acalmasse. Mas ele teria dito:
"- É que é indigno ouvir-se uma coisa assim! Um acadêmico a falar assim da Academia. Querer destruí-la!"
Mas a segunda noite, do dia 15 de fevereiro, foi a mais tumultuada!
Olga - O que aconteceu?
Marthe - Menotti Del Picchia fez uma palestra muito provocativa, defendendo as idéias modernistas, e houve um certo rebuliço na platéia.
Olga - E Oswald, o que sentiu?
Marthe - Vou repetir palavra por palavra o que ele me disse. Até anotei, ouça:
"A tela subiu e vi que o teatro estava repleto. Menotti, de pé, iniciou a apresentação dos novos escritores, aproveitando o primeiro silêncio. Ouviram-no atenciosamente até o fim. Aí, disse ele, apontando-me, que para dar um exemplo do que era a prosa nova, eu ia ler um trecho de romance inédito. Apenas Menotti se sentou e eu me levantei e o Teatro estrugiu numa vaia irracional infame. (...) No fim quando me sentei e me sucedeu Mário de Andrade, a vaia estrondou de novo. Mário, com aquela santidade que às vezes o marca, gritou: Assim não recito mais! Houve grossas risadas."
Olga - Mas que horror! Deve ter sido terrível...
Marthe - Mas o momento de maior estardalhaço ocorreu quando Ronald de Carvalho disse o poema "Os Sapos", de Manuel Bandeira. O público fez coro no refrão "foi, não foi".
Narrador - "Enfunando os papos,
saem da penumbra,
aos, pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.
Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- 'Meu pai foi à guerra!'
- 'Não foi!'- 'Foi!'- 'Não foi!' (...)"
Marthe - E relinchos e miados do público acompanharam a apresentação de nosso amigo Milliet.
Olga - Ah, pobrezinho...
Marthe - Pior foi com Mário de Andrade. Depois da vaia no palco, fez uma conferência sobre artes plásticas nas escadarias do hall, completamente confuso pelas ofensas que lhe faziam. Para culminar, nosso Villa-Lobos entrou no palco usando a devida casaca de maestro, mas arrastava chinelos e um guarda-chuva como bengala. O público ficou indignado e voltou a latir, com a ousadia dessa atitude "futurista". Mas não era nada disso: casualmente o maestro tinha sido atacado de ácido úrico nos pés e não podia calçar sapatos.
Nessa noite somente o recital da pianista Guiomar Novaes foi ouvido em silêncio e aplaudido.
Olga - Mas não faltava acontecer mais nada...
Marthe - Mas quase aconteceu. Alguns jornais informaram que as galerias foram interditadas porque um grupo preparava uma chuva de batatas, você acredita? Até perguntei ao Oswald se teria sido ele o organizador dessas manifestações, conforme ouvi algumas pessoas dizerem. Afinal, ele chamou o coro de vaias, latidos e miados de "consagração da vaia". Mas ele não confirmou nem desmentiu o fato.
Olga - Marthe, você acha, que essa Semana será lembrada no futuro?
Marthe - Não sei... Se depender de Milliet, nosso querido amigo, ela já faz parte da história. Já o Oscar Guanabarino, aquele crítico lá do Rio, disse que "nenhuma obra sensata foi produzida até hoje (pelos modernistas). Em música são ridículos; na poesia são malucos e na pintura são borradores de telas".
Eu acredito que eles têm a vontade de transformar. Morro de raiva de não ter vivido essa experiência. Mas acho que o poema de Mário de Andrade serve para a gente pensar sobre esse novo grupo de artistas e sobre nosso país: "Eu sou trezentos/, sou trezentos-e-cincoenta, / mas um dia afinal eu toparei comigo..."
Olga - É... Quem sabe essa Semana contribua para a história do encontro do Brasil consigo próprio?
Marthe - De uma coisa tenho certeza: foi uma "bruta sacudidela nas artes nacionais!" (Mário de Andrade)
(*)Milliet, Sérgio. Uma semana de arte moderna em São Paulo. In: Amaral, Aracy A. Artes plásticas na semana de 22. 5a. Ed. SP: Ed 34, 1998).
Bibliografia consultada:
Alambert, Francisco. 2a. ed. A semana de 22 - a aventura modernista no Brasil. SP: Scipione, 1994 (História em aberto).
Amaral, Aracy A. Artes plásticas na semana de 22. 5a. ed. SP: Ed. 34, 1998.
Cult:Revista Brasileira de Literatura. Ano V, no. 55.
Leite, Ricardo et al. Novas palavras: literatura, gramática, redação e leitura. Vol 3. SP: FTD, 1997.
Miguez, Fátima. A literatura e as artes plásticas no modernismo brasileiro. RJ: UFRJ, 2001
|